E se você memorizar uma redação 1000 do Enem?!

Um de meus alunos, muito meticuloso, está se preparando para o Enem e chamou minha atenção para uma redação que acabou de ser divulgada pelo Inep, como tendo tirado a invejada nota 1000 no ano de 2016.

Ele notou que essa redação – do ano de 2016 – tinha trechos idênticos aos de outra redação nota 1000 do ano de 2015!

Fiquei boquiaberta… Veja aqui a introdução de cada uma das redações, e me diga o que acha…

Redação 1000 de 2015

Equilíbrio Aristotélico

          Ao longo do processo de formação do Estado brasileiro, do século XVI ao XXI, o pensamento machista consolidou-se e permaneceu forte. A mulher era vista, de maneira mais intensa na transição entre a Idade Moderna e a Contemporânea, como inferior ao homem, tendo seu direito ao voto conquistado apenas na década de 1930, com a chegada da Era Vargas. Com isso, surge a problemática da violência de gênero dessa lógica excludente que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.

Redação 1000 de 2016

Orgulho Machadiano

             Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente a intolerância religiosa é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito religioso que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.


Éééé…. mas espere, ainda não terminei… veja agora o parágrafo II de cada uma das redações nota 1000:

Redação 1000 de 2015

           É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. De acordo com Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a agressão contra a mulher rompe essa harmonia, haja vista que, embora a Lei Maria da Penha tenha sido um grande progresso em relação à proteção feminina, há brechas que permitem a ocorrência dos crimes, como as muitas vítimas que deixam de efetivar a denúncia por serem intimidadas. Desse modo, evidencia-se a importância do reforço da prática da regulamentação como forma de combate à problemática.

Redação 1000 de 2016

           É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Conforme Aristóteles, a poética deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a perseguição religiosa rompe essa harmonia; haja vista que, embora esteja previsto na Constituição o princípio da isonomia, no qual todos devem ser tratados igualmente, muitos cidadãos se utilizam da inferioridade religiosa para externar ofensas e excluir socialmente pessoas de religiões diferentes.

Só deixa eu mostrar mais um parágrafo dessas redações agora – o parágrafo III:

Redação 1000 de 2015

        Outrossim, destaca-se o machismo como impulsionador da violência contra a mulher. Segundo Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, observa-se que o preconceito de gênero pode ser encaixado na teoria do sociólogo, uma vez que, se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, o fortalecimento do pensamento da exclusão feminina, transmitido de geração a geração, funciona como forte base dessa forma de agressão, agravando o problema no Brasil.

Redação 1000 de 2016

           Segundo pesquisas, a religião afro-brasileira é a principal vítima de discriminação, destacando-se o preconceito religioso como o principal impulsionador do problema. De acordo com Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e de pensar. Ao seguir essa linha de pensamento, observa-se que a preparação do preconceito religioso se encaixa na teoria do sociólogo, uma vez que se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, a continuação do pensamento da inferioridade religiosa, transmitido de geração a geração, funciona como base forte dessa forma de preconceito, perpetuando o problema no Brasil.

Não vou dizer nada mais. Mas por favor, se você é professor, ensine seus alunos a serem quem eles realmente são até na hora de escrever – seja o que for que se chama “autoria”, certamente não é “cópia”…

 

Em vez de copiar o que os outros escrevem, aprenda a escrever! Faz bem para sua autoestima…

Não consegue mesmo destravar pra começar a escrever? 

 

Como assim? Não precisa dominar o tema pra fazer a redação?!

O internauta e meu aluno Ronimar fez um comentário num dos meus posts. Ele ainda não acredita que não precisa se aprofundar  nos temas para fazer a diferença na prova do Enem.

Quando eu digo que não é necessário ter lido sobre o tema antes de fazer a redação – até porque no dia da prova você não vai conseguir fazer isso – eu estou dizendo que sua bagagem já deverá ser suficiente.

Não estou querendo dizer que você, vestibulando, “pode ir tranquilo para sua prova de redação mesmo sem ter aproveitado seu ensino médio, se não está por dentro da matéria do ensino médio”, compreende?

Existe sim uma bagagem esperada, que no caso do vestibulando, é o ensino médio.

O que a redação do vestibular espera em termos de temas é aquilo que você aprendeu no ensino médio. Você não precisa ser especialista em nenhum tema para se dar bem na prova, não precisa. Se por acaso você já é formado numa área e o tema da redação é exatamente da sua área, isso não garante que sua redação tenha boa nota. Isso não é uma surpresa: muita gente especialista não consegue ser organizada no papel, não consegue ser clara no papel, e não consegue pôr no papel seu parecer, sua posição. Por isso o “saber sobre um assunto” sozinho não garante ir bem na prova de redação para o vestibular. Todas essas habilidades são muito mais importantes que dominar o tema – por isso você deve treiná-las ao máximo.

Tenho aqui os editais de vestibular do Enem e da Fuvest para você observar que nada é pedido acerca de “temas a serem estudados”.

No caso do Enem, na página 13 do edital, você pode observar que eles reforçam serem base para a redação os assuntos típicos de ensino médio. No ensino médio ninguém se especializa em nada; a especialização exige ensino superior; e o Enem é prova de ensino médio.

Para provas escritas em que haverá avaliação de conteúdo, o conteúdo em questão deverá ser mencionado no edital.

No caso  da Fuvest, na página 39 do edital, sequer é mencionada a grade curricular do ensino médio – não é mencionada nenhuma exigência sobre domínio de tema, observe isso! E ainda a Fuvest chama a atenção para que o aluno não enverede pelo texto expositivo, que é aquele em que se demonstra fatos, conhecimentos, mas que não contém posicionamento.

Procure, claro, pensar nos temas que você vem estudando no ensino médio, tenha curiosidade até em saber mais sobre eles, mas acima de tudo aprenda a observar, tirar suas conclusões, formular hipóteses… isso é importante para que sua redação seja argumentativa, e não somente uma demonstração expositiva de quanto você sabe do assunto!

A organização do vestibular tem o cuidado de fornecer textos para servirem de base na argumentação, então… ninguém pode dizer que não sabe de nada do assunto…

E lembre-se: seu corretor será um professor de português, então de que adiantaria você dominar uma certa área se a avaliação não  incluirá seu conhecimento aprofundado do assunto?

 

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