“Minha redação fica curta…”

Uma internauta de nome Aline lamentou numa página do meu blog:

“Não consigo desenvolver minha redação, ela fica pequena, faltam as palavras, falta tudo. Será que tenho como melhorar isso?” 

 

Sim, existe esse caso de a redação ficar pequenininha, e de o aluno sentir que não tem nada mais a pôr ali, nada mais para dizer…

Por trás disso pode haver

  1. uma falta de interesse por qualquer assunto
  2. a ideia confusa de que não se pode escrever como se fala
  3. pura falta de treino de escrita
  4. falta de noção de como o leitor vai reagir ao ler seu texto
  5. a ideia de que tudo que se pensa é bobagem, e vai ficar ridículo no papel

 

Eu diria que o item 1 é o mais raro de aparecer por aqui, mas acontece…

Os itens 2 e 5 andam juntos – é quando o aluno ouve uma certa vozinha criticando e podando o que se quer escrever… bloqueio criado  na escola e que não existia quando se entrou lá.

O item 4 é o que acontece quando o aluno escreve escreve escreve em anos de escola e cursinho mas não tem a redação lida de verdade e comentada, nem nunca viu a cara do leitor desses textos. Todo leitor – eu e você também – reage ao que lê; essa reação precisa ser mostrada ao aluno no treino, de modo que ele saiba o que fazer com ela.

E se o leitor achar duvidoso o que você escreveu? E se ele simplesmente não entender? E se ele estava esperando algo  a mais? E se ele entendeu do jeito “errado”? E se ele achou agressiva sua afirmação? Enfim… não tem como saber a reação do leitor se você nunca viu essa reação! Ver um professor lendo sua redação ao vivo e a cores do seu lado é muito elucidativo! Se você nunca teve essa experiência não sabe do que estou falando!

E, no caso da Aline, se ela visse a cara do leitor, ou soubesse a reação dele ao que ela escreveu, pode muito bem acontecer de ela escrever mais só pra deixar tudo mais claro para o leitor, mais explicado… Detalhar mais aumenta o texto sem enrolar! No começo, sem o treino, a gente não nota que precisa de mais detalhe, a gente acha até “enrolação” o detalhamento, mas quando se tem um leitor dando retorno o detalhamento é automático. Do tipo “antes que o leitor me pergunte… deixa eu explicar melhor”.

Minha aula virtual 3 mostra um pouco sobre como “esticar” sua redação 😀

 

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E se você memorizar uma redação 1000 do Enem?!

Um de meus alunos, muito meticuloso, está se preparando para o Enem e chamou minha atenção para uma redação que acabou de ser divulgada pelo Inep, como tendo tirado a invejada nota 1000 no ano de 2016.

Ele notou que essa redação – do ano de 2016 – tinha trechos idênticos aos de outra redação nota 1000 do ano de 2015!

Fiquei boquiaberta… Veja aqui a introdução de cada uma das redações, e me diga o que acha…

Redação 1000 de 2015

Equilíbrio Aristotélico

          Ao longo do processo de formação do Estado brasileiro, do século XVI ao XXI, o pensamento machista consolidou-se e permaneceu forte. A mulher era vista, de maneira mais intensa na transição entre a Idade Moderna e a Contemporânea, como inferior ao homem, tendo seu direito ao voto conquistado apenas na década de 1930, com a chegada da Era Vargas. Com isso, surge a problemática da violência de gênero dessa lógica excludente que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.

Redação 1000 de 2016

Orgulho Machadiano

             Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente a intolerância religiosa é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito religioso que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.


Éééé…. mas espere, ainda não terminei… veja agora o parágrafo II de cada uma das redações nota 1000:

Redação 1000 de 2015

           É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. De acordo com Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a agressão contra a mulher rompe essa harmonia, haja vista que, embora a Lei Maria da Penha tenha sido um grande progresso em relação à proteção feminina, há brechas que permitem a ocorrência dos crimes, como as muitas vítimas que deixam de efetivar a denúncia por serem intimidadas. Desse modo, evidencia-se a importância do reforço da prática da regulamentação como forma de combate à problemática.

Redação 1000 de 2016

           É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Conforme Aristóteles, a poética deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a perseguição religiosa rompe essa harmonia; haja vista que, embora esteja previsto na Constituição o princípio da isonomia, no qual todos devem ser tratados igualmente, muitos cidadãos se utilizam da inferioridade religiosa para externar ofensas e excluir socialmente pessoas de religiões diferentes.

Só deixa eu mostrar mais um parágrafo dessas redações agora – o parágrafo III:

Redação 1000 de 2015

        Outrossim, destaca-se o machismo como impulsionador da violência contra a mulher. Segundo Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, observa-se que o preconceito de gênero pode ser encaixado na teoria do sociólogo, uma vez que, se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, o fortalecimento do pensamento da exclusão feminina, transmitido de geração a geração, funciona como forte base dessa forma de agressão, agravando o problema no Brasil.

Redação 1000 de 2016

           Segundo pesquisas, a religião afro-brasileira é a principal vítima de discriminação, destacando-se o preconceito religioso como o principal impulsionador do problema. De acordo com Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e de pensar. Ao seguir essa linha de pensamento, observa-se que a preparação do preconceito religioso se encaixa na teoria do sociólogo, uma vez que se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, a continuação do pensamento da inferioridade religiosa, transmitido de geração a geração, funciona como base forte dessa forma de preconceito, perpetuando o problema no Brasil.

Não vou dizer nada mais. Mas por favor, se você é professor, ensine seus alunos a serem quem eles realmente são até na hora de escrever – seja o que for que se chama “autoria”, certamente não é “cópia”…

Veja aqui a matéria do Guia do Estudante sobre o caso

 

Sobre essa redação 1000 tem mais um detalhe…

 

Em vez de copiar o que os outros escrevem, aprenda a escrever! Faz bem para sua autoestima…

Não consegue mesmo destravar pra começar a escrever?