Você fala errado?

Olha só o que um aluno escreveu numa redação no meu curso:

“Não devemos apenas se livrar do que nos mantém cativos…”

 

Percebeu alguma falha?

Não?

Se não percebeu, você também deve estar falando errado…

 

Repita comigo:

“Eu não devo ME livrar”

“Você não deve SE livrar”

“Ele não deve SE livrar”

“Nós não devemos NOS livrar”!

 

Então, ele deveria ter escrito

“Não devemos apenas nos livrar do que nos mantém cativos”

 

Vamos melhorar essa sua redação que não sai de jeito nenhum?

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Você escreve muito senso comum?

Os professores insistem com os alunos para que não usem senso comum. Você deve saber, senso comum é aquela ideia, aquela forma de pensar, que é a mais comum, mas que pode já estar ultrapassada, ou pode até ser equivocada. Ou seja, o senso comum é um risco porque podemos estar repetindo o que todos dizem, sem pensar.

Só que o aluno não consegue captar quando está mostrando um senso comum na redação. Não é assim com você? Aposto que é…

É natural que quando somos mais jovens, lá pelo ensino fundamental, usemos senso comum: coisas que ouvimos dos mais velhos, gente que para nós está sempre certa. Depois vamos percebendo que os mais velhos não estão sempre certos, e começamos a pensar mais com nossa cabeça, e nos basearmos mais no que vemos do que no que falam para nós. Não significa que depois de superarmos o senso comum estaremos sempre certos, e nem que conseguimos superar totalmente o senso comum!

À medida que crescemos naturalmente também vamos percebendo essas falhas e somos mais autônomos na nossa forma de pensar. Mas creio que sempre poderemos usar senso comum sem notarmos.

Como eu disse, naturalmente você vai se desprender do senso comum, e para isso a escola ajuda muito, e a leitura ajuda outro montão!

 

Você não concorda que as mulheres de “antigamente” eram mais submissas aos homens? Acho que você até escreveria isso em sua redação sem problemas. E é bem provável que o corretor aceitasse, porque ele também pode estar preso a esse senso comum.

Entretanto eu encontrei num livro que acabei de ler evidências de que isso não era bem assim quando consideramos o Brasil colonial! A autora – uma estadunidense doutora em História – levantou documentos em cartórios e igrejas em São Paulo e  Rio de Janeiro e comprovou que as mulheres daquela época no Brasil estavam muito a frente das inglesas em termos de emancipação e poder! Quem diria: era um senso comum!

Eu também tinha esse senso comum. Veja neste primeiro parágrafo o que ela diz:

 

No livro conheci a história de uma escrava paulista que simplesmente se recusou a se casar com quem seu senhor tinha ordenado. E ganhou o processo na Justiça! Também conta sobre uma fazendeira analfabeta, solteira que tocou uma fazenda de café e escravos sozinha. E no livro há também a história da irmã dessa fazendeira: uma mãe solteira que criou sozinha o filho – e isso no século XIX!

Nem imaginávamos ein… Então… assim é que os sensos comuns caem por terra…

(Caetana diz não, Sandra L. Graham, Companhia das Letras)

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