Certa vez, durante a aula de redação…

– Professora, preciso fazer uma redação sobre drogas e poder… que que eu posso escrever?

– Ué, você pode escrever o que você quiser!

– Ahhahahaha… tá, mas me dá uma dica…o que fica melhor na redação?

– Como assim “fica melhor”? Você não vai escrever o que você gostaria de escrever sobre o assunto?! 😮

– Então, prof… eu não sei o que escrever…

– Ok, então acho que você precisa pensar no caso antes, né? Não tem como escrever nada se você nunca pensou nele…Vamos lá: me diga se você acha que drogas têm algo a ver com poder, ou se é impressão… não teria nada a ver.

– Ahm…. ah… acho que tem a ver sim… por exemplo, tem um lance de poder nas comunidades, tem os donos da boca de fumo… tem os grandes traficantes que mandam matar, e tal…

– Perfeito! você tem razão, funciona assim mesmo!

– E… sabe as FARC? Então, era um grupo muito poderoso, e eles tavam ligados  a drogas… as FARC tinham tanto poder que ameaçavam o governo da Colômbia…

– Perfeito! Boas lembranças! Que eu lembre as FARC chegaram a participar da política… Bom… não olhe pro papel. Só me diga o que você gostaria de falar sobre essa relação entre poder  e drogas… o que te incomoda nessa história? O que seu coração gostaria de falar se pudesse?

– Ahm… ah… sei lá… eu acho que depende um pouco das pessoas envolvidas, né? Tipo… acho que as pessoas que querem ter o poder no tráfico precisam de pessoas que aceitem esse domínio, né? Então precisa envolver gente ignorante… gente que, por exemplo, tem pouca instrução… ou não tem perspectiva de vida… miséria, pobreza…

– Entendi, faz sentido. Então você queria deixar claro que esse poder advindo das drogas exige um contexto específico, um contexto onde haja gente sem perspectiva de vida, sem instrução…

– Sim, mas eu não sei se tá certo pensar assim!

– ?! … Você não sabe se o que você pensa é certo? Mas sua opinião é sempre certa! Você deve ter motivos para pensar assim… acho que você viu alguma coisa que te fez pensar assim… Você tem razão do que pensa!

– É… mas sei lá… não sei se o corretor vai gostar…

– O corretor não precisa gostar de nada, ele está sendo pago (mal pago) pra ver se você é clara, e se tem motivos para pensar como pensa! Imagina se ele vai dar nota alta para quem ele gosta e nota baixa pra quem ele não gosta!!

– Ahahahahha… então tá…

(E começou a anotar sua ideia na folha. Foram pouco mais de 5 minutos nesse processo)

***

Essa foi parte de uma das minhas aulas de redação com uma minha aluna do 2o. ano do ensino médio. É uma aula parecida a muitas outras de gente que vai prestar vestibular também. Como vocês podem ver, os alunos são ensinados a não confiarem nem nos próprios pensamentos, graças a nosso sistema de ensino…

Observe também que eu não dei nenhuma frase ou palavra para começar redação – isso de dar frases modelo deixa o aluno muito à mercê da sorte, porque frases ou palavras prontas não vão funcionar em todas as situações, e as coisas podem desandar. Para mim o importante é ajudar o aluno a confiar em si mesmo, de maneira que ele possa se virar tranquilamente independente do tema que caia no vestibular.

***

Alguns concorrentes seus já terminaram meu curso… faça logo meu curso e deixo você ver as redações deles! 😉

Uma coisa cresce outra?!

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